terça-feira, 7 de junho de 2011

Só por ela...



Já havia algum tempo, Manu estava sentada no sofazinho diante da janela da sala. Aquela que dá para a rua, de onde se podia ver as carroças e carroceiros, cavalos, cavaleiros e cavalheiros. Aquela rua de paralelepípedos que descia até à Principal. Em seu traje mais belo, de pregas, rendas e setins, ela observava o pôr do sol, com cuidado e um sorriso.

As pessoas passavam, apressadas ou não, bem vestidas ou não, no meio de um frisson particular. Cada qual com seu propósito, com seu motivo, e Manu estava à espera, na janela, de seu amor passar... vir te buscar. “Ahhh... como era doce a espera de quem ama”, pensava Manuela. E com sorriso, ela esperava.

Assim como os transeuntes, o fim de tarde também passava, e a noite chegava. Menos o amor de Manuela. Os criados lhe trouxeram bolo, pão e bolachas, frutas, chás e água, mas ela tudo recusava. Lentamente o sorriso aberto virou um olhar Monalisa, e Manuela aguardava. A primeira estrela brilhou no céu...

Junto com o negrume da noite, surgiram constelações e velas, luminárias da praça acenderam, e o vento zuniu. Manuela esperava, ainda, na janela, do jeito dela, toda bela. E nada de seu amor. Preocupados, os criados tentavam agradá-la, mas educadamente ela recusava, sorrindo gentil: “Muito obrigado, mas dispenso. Pode recolher”.

Noite adentro, Manuela na janela. Estrelas no céu, longa espera. E o amor dela não compareceu. Era madrugada quando tão bela, Manuela, fechou sua janela e se recolheu. Marina, sua criada, desfez os nós do espartilho, desarmou seu vestido, e lhe trouxe água quente para o banho de banheira.

Ela se lavou, limpou toda aquela beleza que agora virava sujeira, maquiagem, bobagem, apenas para esperar uma noite inteira. Limpa e despida, Manuela dormiu, escondendo no travesseiro uma lágrima tão solitária quanto ela.

No dia seguinte, ela mandou que colocassem uma placa na janela: “De tanto esperar, morreu Manuela”, e que de agora em diante, ela se chamaria Carmela. Obedeceram os criados, consternados. Era o 30º nome que ela adotava naquela mês.

Marina explicava: “Ela o ama, não se tem dúvidas. E cada decepção que ele traz pra ela, fere apenas seu nome. Por isso ela o troca toda vez, para que possa ter esperanças novamente, de que ele virá...” – pausou – “Agora Manuela-chamada-Carmela, vai esperar mais uma noite na janela, e se ele não virer, Carmela também morrerá, para que no outro dia, outra, por ele, possa esperar”.

2 comentários:

Michelle disse...

Tenho me sentido assim, esperando por aquele que não vem. Triste!

Pandumiel Tunmarë disse...

Carmela não morrerá, nunca!
Não que ela seja como a Esperança, pois a Esperança é a última!

Carmela, sim ela é,
Imortal...