quinta-feira, 19 de maio de 2011

E Amadeu morreu sozinho



Alzira tinha 16 anos quando se casou. Se houvesse melhor definição para ela, seria Anjo. Delicada, comportada, obediente, beata. Sua fé era inabalável, e suas idas às missas dominicais eram sagradas. Talvez ela tenha se casado com o Coronel para quitar algum débito karmico, ou por que ela talvez fosse a única que poderia suportá-lo. Ao contrário dela, ele bebia, batia e traia, vivia uma vida desregrada. Das duas únicas relações sexuais do casal – e da vida de Alzira – nasceram Maria e Fernando.

Joana era menina na fazenda, aos 17, prometida para Antonio. Na semana de seu casamento observava a movimentação dos peões, um grande altar para receber os convidades e realizar a cerimônia era erguido no gramado principal da Casa Grande. Entre eles, carregando uma grande tora de madeira, estava Francisco, o peão mais bonito e forte. Durante a noite, de bota, calças, camisa, chapéu, trouxa de roupas e cavalo, ela parou diante da porta de Francisco. Fugiram para o Estado de São Paulo, tiveram quatro filhos, entre eles, Agnaldo.

Maria e Agnaldo se conheceram. Ele, badboy, motoqueiro, falastrão, engraçado. Ela, a menina mais linda da cidade, cheia de opiniões, inteligente, feroz. Casaram-se aos 21 dela, quando nasceu Amadeu, o primogênito. Logo em seguida, veio Amanda.

Amanda cresceu tal qual rascunho da mãe. Narizinho empinado, beleza desconcertante. Se tornou escritora, jornalista e poetiza. Publicou mais de cinco livros, teve filhos, enfrentou a vida e é feliz. Viaja o mundo quando dá na telha, ri de coisas bobas e chora por qualquer coisa. Tem uma vida viva, ativa.

Amadeu era gay, virou CEO de uma empresa e é rico. Morava numa mansão no nordeste, tinha tudo o que queria. Nunca conseguiu um grande amor, nunca foi amado por ninguém. Morreu sozinho aos 33, de tristeza. Reza a lenda que, antes de morrer, chorou a fé de Alzira, as traições do Coronel, a loucura de Joana e inconseqüência de Francisco. Também chorou pela vida de Maria, Agnaldo e Amanda... mas morreu de solidão.

Um comentário:

Pandumiel Tunmarë disse...

Triste...
Mas a construção da trama é impecável e excelente!

Devia começar a escrever mais, os detalhes, mesmo em pequenos trechos como esse, são na medida certa! Pois podemos imaginar todo o cenário!

Parabéns!! `^^´

Mas é triste...