terça-feira, 26 de abril de 2011

A sua puta mancada!



Mariana desceu o morro com passos decididos, e cada vez que seus pés descalços tocavam os degraus entre os barracos, parecia que o mundo todo tremia. Seus olhos negros de jabuticaba estavam sem brilho e suas sobrancelhas franzidas indicavam um ódio no peito que não combinava com sua beleza.

Como uma serpente de pele negra, Mariana passou pelos corredores da favela em passos apressados, esgueirando-se como podia entre as paredes. Tinha um objetivo: acabar naquele dia com toda aquela palhaçada. Onde já se viu, ela, a negra mais linda da favela, quem sabe até da face da Terra, ser tratada assim por um brutamontes sem coração.

E foi com essa fúria nos olhos que ela entrou no galpão onde se reuniam todos os amigos de Roberto, parou bem no meio, com as mãos na cintura. No canto, perto da janela, um sofá velho servia de repouso para três ou quatro marmanjos. Uma mesa logo em frente ao sofá guardava uma travessa com carreirinhas de um pó branco, enquanto outro marmanjo “farejava” aquela mistura. De pé, olhando pela janela do galpão, que dava pra um dos acessos à favela, Roberto, com um fuzil na mão.

Pensa que Mariana se intimidou? Nem mesmo com todo aquele 1,90m de puro músculo, braço quase mais grosso que sua cintura e peitoral que dava quase três do seu. Ela, filha de Iansã do Barra-Vento, passou pelos outros “colegas de trabalho” de Roberto, sem cumprimentá-los e parou de frente ao seu “amado”.

Roberto se surpreendeu ao vê-la ali, e pelo seu olhar fulminante, entendeu que não era uma simples visita de cortesia. Tentou argumentar que era perigoso ela ficar ali, no “trabalho” dele, que eles conversariam depois, em casa. Mas ela insistiu, com os olhos começando a afundar em uma fina camada de lágrima.

Foi, talvez, a cena mais bizarra já presenciada por aqueles Cavaleiros do Morro: a menina mais linda da face da Terra, urrando de raiva e ciúme, dando de dedo na cara de um marmanjo quatro vezes maior que ela, armado com um fuzil. Quando terminou seu discurso sobre querer ser amada e respeitada como mulher, Mariana deu as costas para Roberto, sacudindo sua espessa e negra cabeleira, e partiu, pisando ainda mais firme.

Impressionantemente, uma lágrima escorreu do olho de Roberto, sem que ele notasse. Foi aí que ele entendeu o valor de quem ele tinha acabado de perder.

Um comentário:

Pandumiel Tunmarë disse...

UAUUUUUU!!!!!!! :O
Não consigo dizer nada depois de ler essa narrativa!