quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Trago a vida entre os dedos



Eu trago a vida no colo como uma mãe zelosa (e paranóica) traz seu bebê, pendurado ao seio. Alimento a vida com nutrientes de meu próprio corpo, com amor que vem da alma e com o cuidado diário de faze-la feliz. Na verdade, não assisto filmes de terror para não entrar naquela sintonia do medo e da insegurança de simplesmente existir. Eu trago a vida preservada, imaculada, pura.

Eu trago a vida como se traga um cigarro vagabundo. Extraio dela todo o alcatrão e demais toxinas, filtrando-a com meus próprios pulmões. Me lambuzo na vida com a ferocidade de alguém que se joga nos próprios erros, entregue ao hedonismo e niilismo negativo. Apoiado em Dostoievski, prego aos quatro cantos: “Se Deus está morto, então tudo é permitido”.

Noto que quanto mais vivo a vida como algo puro e sutil, mais me aproximo da beleza, da arte, da caridade. Fico cada vez mais puro, cada vez mais tranqüilo, mais bonito. Fico mais esperto, mais desperto, e vejo melhor os meandros de tudo e todos. Sinto tédio. Inversamente proporcional a isso, quando gozo a vida com tudo o que ela tem a me oferecer de mais bélico e bacante, maior é meu prazer. Maior é minha alegria de viver. Maiores são meus problemas e o caos que causo na vida minha, e todos os outros. Me distancio de Deus. Me sinto pleno.

Certa vez me disseram que o grande artifício da maldade, do caminho ruim, do vício, é confundir seus filhos com a euforia, fazendo-os acreditar que se trata de alegria ou felicidade. Hoje descobri que paz de espírito custa caro, e se você não estiver preparado para ser feliz, pode confundi-la com falta de perspectiva, ou “nada para fazer”.

O paraíso não é um lugar onde todos sentam à sombra, e riem com as 100.000 virgens que nos servem de vinho e pão. É um local de trabalho árduo e eterno, onde nos entregamos de coração aos objetivos de algo maior. O inferno sim, é só sossego e preguiça... estagnação que degenera-nos com o tempo.

2 comentários:

Pandumiel Tunmarë disse...

Pois que nenhum caminho é certo ou errado.. e Deus nos deu o ímpeto de escolher um ou outro...
Mas nós continuamos querendo dizer sobre certo e errado...

Por isso Deus se foi...
Sabemos que estamos no topo de nossas vidas, mas não queremos essa responsabilidade!!!

Essa responsabilidade de sermos felizes é pesada demais para os mortais...

Cáh disse...

belissimo, inteligente, sagaz.


Fico cada vez mais puro, cada vez mais tranqüilo, mais bonito.


Amem!



Te amo