quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

... do jeito que der!

Todo dia ela acorda com aquela sensação estranha. Os cabelos desgrenhados, a boca amarga e os olhos inchados... e mesmo assim ela levanta sem pressa para se arrumar. Olha para o outro lado da cama e sente naquele vazio um frio terrível. Sonolenta, se arrasta para o banheiro, onde começa a se preocupar um pouco mais consigo mesma...



Ainda de pijama ela olha para a cozinha com total desprezo. Foi-se o tempo em que separava a torradeira, passava um café fresco, punha à mesa a geléia, a manteiga, três tipos de bolachas, o pãozinho e o vasinho com flores. O leite, o suco e a água... e duas xícaras...

Liga a cafeteira apenas pra esquentar o café de ontem a noite, recolhe o jornal e dá “bom dia” pro gato. Ele ronrona e mia em seus braços, mas ela sabe, é puro interesse. Basta encher a vasilhinha com ração e pronto... lá se vão seus 5 minutos de atenção. “Deixa estar, gato safado! O que é seu está guardado”, ela pensa toda vez, mas repete este ritual há 2 anos.

Se arruma para ir ao serviço com desprezo pelo espelho. Os cabelos ficam amarrados num rabo de cavalo sem graça, que estica ainda mais sua cara larga, destacando os óculos de armação antiga. Seu corpo, de causar inveja em muitas mulheres, é coberto por um terninho impessoal e frio. Talvez o salto alto lhe desse um pouco mais de glamour, e pudesse chamar este estilo de “chique”, mas o fato é que seu andar perdeu o brilho... há dois anos.

Toma uma xícara do seu amargo café, dá um ultimo beijo no gato – que foge, e vai para o serviço em seu carro. Sozinha. Vez ou outra se lembra de ligar o som. Estaciona na vaga privada do prédio, cargo de diretoria lhe confere alguns benefícios. Quando passa pela recepção, pega o crachá com a secretária, que lhe é sempre simpática, e vai para sua sala, com o olhar perdido em papéis, números, estratégias e um pouco de poesia...

“Poesia? Como assim?” – surpreende-se. Um texto lindo, que fala do seu olhar lânguido, do seu sorriso tão raro e de sua voz doce e comportada. Fala também de seus tornozelos lindos, de sua cintura tão fina e do brinco de flor prateada que brilha entre uma mecha ou outra do cabelo, quando resolve soltá-lo. A poesia fala de sua boca, suculenta e natural, como pele de pêssego pedindo para ser beijada.

Incomodada, ela passa a mão pelos cabelos e repara o reflexo de si mesma sobre o vidro da mesa – “Será?”, pensa ela, tentando encontrar todos aqueles adjetivos ali. Uma última lida na poesia, e espanto... há uma assinatura. Quem ela menos esperava!

No dia seguinte, deu-se o luxo de dormir até mais tarde. Abriu um sorriso para o espelho e fez sua higiene bucal com tanto zelo, que seus dentes pareciam porcelana chinesa. Não tomou o café, mas escreveu atrás de um de seus cartões corporativos – “Aceita um café? Em 10 minutos, no Caffee da esquina”.

Quase esquece da comida do gato, enquanto ia embora. Carrega no bolso o cartãozinho, com tanto cuidado, como se levasse um pedaço de seu coração. Se olha no retrovisor para conferir o visual, e está linda... decote, cabelos soltos, rosto maquiado delicadamente e os brincos de flores de prata. O perfume, era aquele que ganhou do último namorado... há 2 anos. Estava preocupada se ainda cheirava bem, e para sua surpresa, estava ótimo!

Chegou no estacionamento, mas ficou alguns minutos a mais no carro. Era tudo uma loucura. Não sabia se deveria fazer aquilo, mas enfim... releu a poesia. E sorriu. Tomou coragem e foi para sua sala. Ao passar pela secretária, sorriu dizendo: “Desmarque meus compromissos da manhã. Tenho um assunto sério para tratar daqui a pouco” – a secretária, única criatura sorridente no seu dia-a-dia, consentiu, sem entender.

Entrou em sua sala e aguardou cerca de cinco minutos. Era o tempo suficiente de sua secretária desmarcar todos os compromissos. Então, respirando fundo, ela voltou à recepção, completando – “Adorei a poesia. Tome, fique com este cartão... te espero em 10 minutos!” – e saiu rebolando, com seu salto alto, com aquele jeito de andar que só teve uma vez há cerca de dois anos atrás.

Decidiu ser feliz.





2 comentários:

Pandumiel Tunmarë disse...

Devo dizer que me surpreendi, mas já esperava o final! `^^´

Deliciosa descrição de uma vida que muda só com um leve empurrãozinho!
Amei ler, amei o resultado!

Parabéns Ma!

J. Valentin disse...

Olá, tudo bem?
Eu indiquei seu blog para receber selos, passa no meu e pode pegá-los.

Beijos e um Feliz ano novo! *-*