segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Enquanto o amanhã não chega...


Houve um tempo em que, quando um adulto se aproximava, e me acariciava os cabelos, eu me sentia feliz. Bastava um toque na cabeça, um sorriso e um “como vai, garoto”, e eu sorria em retribuição e corria feliz para meus brinquedos. O dia ficava mais divertido, os brinquedos ficavam mais legais. A vida ficava mais tranqüila, até o dia acabar, e eu esgotado, dormisse. Sorrindo. E era gostoso dormir...

Houve um tempo em que um “Bom dia, meu anjo”, seguido de um papo animado no café da manhã, já supria minhas necessidades. Bastava aquele momento único e tranqüilo, e todo o dia se tornava mais prazeroso. Os amigos da escola não me amolavam, as brincadeiras não me irritavam, as brigas não me estressavam. Eu seguia o dia com a confiança plena de que ao chegar em casa, eu estaria tranqüilo, dormiria sossegado, e outro café da manhã animado iria surgir. Era gostoso dormir...

Houve um tempo em que um “Eu te amo”, seguido de um beijo, sarava todas as feridas. O dia era estressante, o trabalho era exaustivo, as pessoas fustigavam meu humor com grosserias e violência. Tudo era maus tratos, arrogância, avareza. Mas eu me mantinha firme, sério, educado, compenetrado no que eu tinha que fazer e, modéstia à parte, eu fazia muito bem. Por que eu sabia que, ao cair da noite, debaixo de uma árvore numa rua escura qualquer, eu iria ouvir isso. E teria meu beijo. E eu voltaria curado do caos diário pra casa, e dormiria bem. Era gostoso dormir assim...

Houve um tempo em que um “Ei, cara... vamo tomá uma aqui na sacada? Chega aí!”, completava minha necessidade de prazer. O papo descontraído, a aceitação de minhas particularidades, as pessoas ao redor. Isso fazia esmaecer os problemas do cotidiano, como a falta que eu sentia de ouvir “Como vai, garoto” com a mão de um adulto sobre minha cabeça; ou a falta do “Bom dia, meu anjo”, no café da manhã; ou a angustia por ter perdido o “Eu te amo” debaixo do Oiti escuro, antes de dormir. Supria, em partes, mas ainda assim, me ajudava a dormir. E era gostoso dormir, depois...

Hoje, é um tempo em que não tenho mais a mão de um adulto forte sobre minha cabeça, como se fosse me proteger. Não tenho mais o amoroso “bom dia”, no café da manhã. Não tenho mais um beijo de boa noite, carregado de paixão. E nem tenho mais companhias para uma happy hour, a fim de lavar a alma pro dia seguinte... São dias e noites vazias, sem entusiasmo, sem ânimo, nas quais eu me arrasto como um velho peregrino, tendo na mão uma bengala chamada “paciência”. Hoje, eu tenho insônia.

Amanhã, creio eu, tudo pode mudar. Estarei de barba cortada, roupas lavadas, corpo curado. Terei o luxo de acordar de manhã, preparar o café, e dizer “Bom dia, meu anjo”, para quem acordar ao meu lado. Vou poder atravessar o mapa para reencontrar meus amigos, e convidá-los para uma “happy hour”, mesmo que seja uma segunda-feira. E nesse dia, provavelmente estarei com um presente nos braços, para entregar ao garotinho ou garotinha que estiver correndo pela casa da minha família. Ao entregar, vou tomar o cuidado de colocar minha mão sobre sua cabeça inocente, e dizer “Ei, como vai criança?”. E vou poder abraçar minha família com o coração acelerado, e não mais confuso como está, desejando uma boa noite de sono para todos.

E ao cair da noite, com um beijo apaixonado, eu diga “Eu te amo”, e durma bem. E sonhe com a época em que eu era aquele garoto que brincava alegremente.

Um comentário:

Pandumiel Tunmarë disse...

Sabe o que é?
O Amanhã, nunca se sabe...

E bem... companhia pra happy hour? alguém falou em beber? hehe